quarta-feira, março 12, 2008

E assim correm os dias...

Soube por mais de uma pessoa da intervenção da Polícia Federal em Campos dos Goytacazes. Espero pelos jornais impressos de amanhã. Eventos como este suscitam reações as mais diversas, algumas beirando à histeria. Como não poderia deixar de ser, rápidas leituras sobre os rumos da política pipocam. “Será que Arnaldo será candidato mesmo?” ou “Garotinho será prefeito mais uma vez?”. A menção a dois nomes da política local que assumiram nos últimos anos visibilidade no país não é despropositada. Assim se faz em termos binários – para usar uma linguagem da informática - a visão comum sobre o desenrolar da investigação operada pela PF. Impressionante o engarrafamento nas principais ruas da cidade e o tumulto em frente da Câmara de Vereadores. Muitos procurando se informar ou se precaver ante o ocorrido. Por maior evidência que possamos atribuir à cobertura jornalística da ação policial, a dita visão binária omite a profundidade dos conflitos de valores e de interesses entre mandantes e mandatários. Penso que a pergunta sobre a possibilidade de uma contestação organizada seja um bom começo para um debate que inclua não apenas círculos acadêmicos e que não espelhe o elitismo anti-plebeu (do qual todos nos sentimos um pouco tentados). Talvez certos níveis de análise se articulem como um pano-de-fundo dessa situação: de um lado, a disputa de grupos de interesse privado no loteamento do botim municipal e, de outro, o desemprego em massa combinado à elevada segregação sócio-econômica. As pesquisas sobre desenvolvimento local apontam com detalhamento os condicionantes dessa segregação. Para além das curvas dos royalties há que se dimensionar as alternativas que se abrem nos termos da sucessão eleitoral vindoura. Aqui, deparamos com uma perspectiva amarga – there is no future –, ao menos quanto à formação de coletivos cuja experiência seja restrita ao mercado político convencional. Movimento estudantil, sindicatos e demais associações e movimentos de luta com grupos independentes têm uma breve janela histórica para viabilizar demandas sociais obstruídas há muito pelas redes de clientela dos “garotinhos”, “arnaldos”, “moicabers” e similares. No entanto, quais concepções e práticas poderão ser mobilizadas para tal contestação política? Outro sabor amargo: entre a opulência e a pobreza massiva há relações de troca que fazem dos “assistidos” de sempre à classe média remediada uma sólida base social do arranjo de poder cuja lógica não pode ser entendida pela lente do personalismo. Sob o abrigo do pessimismo da razão e com certa dose de vontade façamos as tomadas de posição necessárias.

Paulo Sérgio Ribeiro da Silva Jr.

Sociólogo
Mestrando em Políticas Sociais (UENF)

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